Artigo

Indicação de Leitura

Por Marina Siqueira ·


Recentemente li Carta ao Pai, de Franz Kafka que, como o nome diz, é uma carta escrita ao pai dele, mas que nunca foi entregue ao destinatário.

Ao longo da obra, que, inclusive, me pareceu muito melancólica e provavelmente difícil de ser escrita pelo Kafka, nós podemos ver como as experiências da infância podem ir construindo, no sujeito, uma lente pela qual ele enxergará a si mesmo, o mundo, as relações e os outros na vida adulta. Afinal, é muito importante lembrar que Carta ao Pai apresenta apenas a perspectiva do Kafka. Então não é um relato neutro dos acontecimentos, mas, sim, um retrato sobre a maneira como ele compreendia aquela relação depois de anos vivendo sob ela. Vemos a culpa, o peso da autoridade paterna e a opressão emocional vivida por ele na infância que afetou a sua vida adulta, suas escolhas e seus relacionamentos.


(...) sempre me escondi de você no meu quarto, com meus livros, com amigos malucos, com ideias extravagantes, nunca falei abertamente com você, no templo nunca ficava a seu lado, num o visitei em Franzensbad, aliás nunca tive sentido de família, não dei atenção à loja nem a seus outros negócios, a fábrica eu deixei nas suas costas e depois o abandonei (...)


E, pra mim, isso mostra um caráter muito humano e que é nosso. Porque quem me acompanha nas outras redes sabe que nós não nos relacionamos apenas com os fatos. Nós nos relacionamos também com o significado que eles passaram a ter para nós. Fazemos isso o tempo todo! Nenhum de nós enxerga a realidade de maneira completamente objetiva. Todos interpretamos o que vivemos a partir da nossa própria história e da lente que construímos á partir das experiências infantis pelas quais passamos.


Eu teria sido feliz por tê-lo como amigo, chefe, tio, avô, até mesmo (embora mais hesitante) como sogro. Mas justo como pai você era forte demais para mim.



Às vezes, essa lente nos permite perceber as coisas com clareza. Outras vezes, ela está embaçada por experiências de medo, rejeição, humilhação ou abandono, e passamos a interpretar pessoas e situações atuais como se ainda estivéssemos vivendo aquilo que um dia vivemos. Se, durante a infância, por exemplo, essa lente foi sendo construída em um ambiente de medo, críticas constantes ou humilhação, é natural que muitas experiências da vida adulta também sejam interpretadas a partir dessas marcas, assim como acontece com experiências de afeto, cuidado e amor, não é mesmo?


(...) éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular antecipadamente como eu, a criança que se desenvolvia devagar, e você, o homem-feito, se comportariam um com o outro, poderia supor que você simplesmente me esmagaria sob os pés e que não sobraria nada de mim.

É aqui, então, que o autoconhecimento entra muitas vezes. Obviamente, ele não muda o que aconteceu na infância, mas pode nos ajudar a reconhecer a lente através da qual temos enxergado a vida e avaliar se ela não precisa ser trocada ou limpa de vez em quando. E, mais ainda, aos poucos, perceber que nem toda relação precisa ser vivida como foi um dia.


Você já leu Carta ao Pai? O que essa leitura despertou em você?


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Foto de Marina Siqueira

Marina de Souza Silva Siqueira

CRP 04/19063 | 04/PJ3700 · Psicanálise para traumas e relações disfuncionais

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